Joelma Joca

Variedades

Brincadeira que mata

No verão cresce o número de adeptos por uma brincadeira que já fez parte do mundo infantil de várias gerações, empinar pipas ou arraias por uma linha, encanta pessoas de todas as idades e sexo, uma brincadeira que era muito usada quando não havia tantos brinquedos, mas bastante espaço livre.

Hoje em dia o número de pessoas que praticam esta brincadeira vem diminuindo em função das diversas opções de lazer, elas têm preferido jogos de vídeo-game e computadores. Mas crianças principalmente as de poder aquisitivo mais baixo, ainda se encantam com aqueles papéis coloridos que bailam nos céus da cidade.

Do alto de suas lages, muros, morros, crianças e adultos travam uma batalha, não apenas pela pipa que alcança mais altura ou derruba a outra quando se enlaçam, mas o que antes era uma brincadeira ingênua tem se transformado em algo muito perigoso. Alguns adeptos colocam uma mistura de cola de madeira e vidro moído com um alto poder cortante na linha da pipa, na intenção de cortar a linha da pipa adversária, sem perceber, tem em mãos uma arma altamente perigosa, essa mistura conhecida como cerol tem sido responsável por diversos acidentes, alguns fatais.

Uma média de dez pessoas morre por ano no Brasil vítimas do cerol, segundo o Brazilian Kite Club, a entidade que reúne os aficionados da brincadeira. Nas férias escolares, aumenta o risco de acidentes, pois é maior o número de crianças com linhas afiadas nas ruas, os acidentes ocorrem já na confecção do cerol.

Campanhas promovidas pela entidade têm reduzido o número de acidentes fatais, entre adultos, os mais atingidos são os motoqueiros, que hoje acoplam antena ao guidom para servir de escudo contra as linhas. Devido à falta de proteção do pescoço do motociclista este é o local mais vulnerável. Nesta região passa uma artéria de grande calibre e o corte desta pode provocar um sangramento muito intenso causando a morte em poucos minutos. Existem casos de pessoas que tentaram retirar a linha do pescoço e tiveram seus dedos amputados.

No início de 2008 em São Paulo, Eliane Leandro Santos, estudante universitária de 27 anos, teve sua garganta cortada quando passava de moto pela Praia Grande, o marido da vítima que vinha em seu carro logo atrás, viu a scooter amarela caída no chão e vários curiosos no local, “quando me aproximei ela ainda agonizava e eu enlouquecia tentando entender o que causou aquele corte no pescoço de minha mulher”.

No Rio, há uma lei, de 1996, que proíbe o cerol, mas não foi regulamentada. Isso dificulta o trabalho da Guarda Municipal, que se limita a apreender as pipas irregulares. “A mistura agora é feita com lâmpada fluorescente, vidro blindado, pó de ferro ou bolinha de árvore de Natal”, diz Sílvio Vocce, presidente do Brazilian Kite Club que além de ser médico, é motociclista e já teve sua mão ferida por tentar tirar a linha com cerol que ficou presa a sua moto.

Em Salvador a situação não é muito diferente, crianças vítimas de choques elétricos dão entrada constantemente no Hospital Geral proveniente de suas pipas que atingem fios de alta tensão, eles estão utilizando também variações de pó cortante, o mais comum é o pó de ferro que tem um agravante, pode conduzir eletricidade quando toca nos fios de alta tensão provocando curtos circuitos e até a morte em quem solta as pipas, houve dois óbitos no ano passado diz Dr. Marcelo Cardoso chefe da emergência infantil.

O local preferido pelos praticantes da brincadeira atualmente é um terreno baldio ao lado do aeroclube, dezenas de pessoas incluindo adultos e crianças freqüentam o local que não possui fios elétricos e é bem amplo, perfeito para a prática da brincadeira, afirma José Simas taxista e morador da Boca do Rio, “eu tenho 42 anos e me sinto uma criança quando estou empinando, trabalhei hoje até ao meio dia, fui pra casa trouxe a mulher e fico aqui até o braço cansar, há pessoas que fazem uso do cerol aqui, mas eu não utilizo, acho que perde a competitividade, fica sem graça já que a linha com cerol corta a outra só encostando, aí fica fácil!”.

Samira sua esposa, que aderiu a brincadeira depois de inúmeras brigas com ciúme do marido, agora diz que sua relação com o maridão melhorou muito depois da pipa. “não acreditava nele quando ele dizia que estava empinando pipa, levava à tarde toda de sábado e às vezes a de domingo fora de casa e sempre chegava bronzeado, até que resolvi segui-lo e constatei que ele falava a verdade, desde então brinco aqui com ele e depois saímos pra tomar uma cervejinha, coisa que já não fazíamos, pois sempre brigávamos nos finais de semana”.

Enquanto não se acha uma solução efetiva para resolver este ato criminoso que é a utilização do cerol, campanhas servem de apoio a vítimas e adeptos a proibição desta prática, no site www.cerol.com.br pode ser encontrado, fotos de vítimas do cerol, relatos de sobreviventes e de familiares das vítimas, encontros entres entidades que se mobilizam contra ao uso do cerol, e muitas outras informações, o responsável pelo site é um sobrevivente do cerol, Robson Morais Almeida que está sempre pronto a se mobilizar contra esta prática criminosa que ainda não tem uma solução por parte das autoridades.

Março 29, 2008 Publicado por joelmajoca | Sem-categoria | | Sem comentários ainda