Joelma Joca

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A vida dos outros

A vida dos outros – Guilherme Fiúza, Época 04 de abril de 2008

Hoje o caso da garota que foi atirada do sexto andar do apartamento onde seu pai morava, é assunto principal na mídia e em todas as rodas de conversas. Isabella Nardoni morreu no dia 29 de março de 2008 e os principais suspeitos do crime são, o seu pai e a madrasta com quem Isabella passou o final de semana. Antes mesmo das inventigações terem sido concluídas, o público já deu seu veredito, “culpados”.

Apesar de todos os indícios estarem contra ao casal Nardoni, um pré-julgamento, é algo muito perigoso! inúmeros casos já aconteceram em que a mídia e o público se posiciona julgando e condenando antes mesmos que hajam provas concretas contra os réus.

Um exemplo disto, foi a Escola Base em Saõ Paulo, onde os diretores, funcionários, e até um casal de país de alunos foram acusados de abusar das crianças. Sem que houvesse uma apuração dos fatos, a escola foi apedrejada, os seis acusados foram presos, e até as investigações apontarem que não havia indícios para condenar ninguém, essas pessoas tiveram suas vidas devassadas.

É difícil escrever sobre uma tragédia sem ser acusado de insensibilidade com a dor alheia, talvez a saída mais segura seja falar da nossa própria. Na matéria da revista Época de 04 de abril de 2008, o jornalista Guilherme Fiuza relata algo semelhante ao caso Nardoni, é a sua triste estória, e o rumo que ela tomou, logo após o que ele julga, ter sido o pior momento de sua vida.

-No dia 2 de julho de 1990 meu primeiro filho, Pedro, caiu do oitavo andar do prédio onde morávamos, em Botafogo.  Desci de escada achando que seria mais veloz do que o elevador, talvez do que a própria queda. Encontrei-o já morto, e não precisava ser médico para constatar. Os ferimentos eram brutais.

Voltei com ele de elevador, mas ainda com pressa, agora de dizer a mãe dele que não podíamos fazer mais nada. Antes que pudéssemos entender o que fazer da nossa própria vida, já tínhamos uma certeza: não podíamos sair de casa. Estávamos presos lá, com dois policiais militares armados na porta do apartamento.

Antes do poder enterrar meu filho, tive que contratar um advogado. Recebi-o no quarto de empregada, para poupar a mãe de Pedro, minha ex-mulher, daquela conversa surrealista.

 Embora vivêssemos em harmonia e fossemos particularmente tranqüilos, o advogado vinha relatar depoimentos comprometedores do síndico e de vizinhos a polícia. Eles diziam ter ouvido ruídos altos de portas batendo, discussões febris, gritaria.

 Foi longo o tempo até encerrar esse processo insano e provar que o os vizinhos tinham delirado. Mas foi muito rápido, instantâneo, os castigos impostos pelos homens da lei, de mãos dadas como os vizinhos diligentes: ser tratado como suspeito da morte do próprio filho.

Quando a Polícia Militar nos permitiu deixar o apartamento, no qual nunca mais voltaríamos a morar, tivemos que deitar no chão do carro, para evitar a multidão de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas.

Escapamos de passar pelo que passou a mãe de Isabella Nardoni, quase jogada no chão pela sanha da imprensa. Uma mãe de quem a vida acabara de arrancar uma filha, que, portanto mal se punha de pé por si mesma… Bem, colegas, morram de vergonha.

No Espírito Santo, há outro pai preso pela morte da filha que caiu da janela. São todas situações sobre as quais é preciso encontrar a verdade.

Se os pais forem desgraçadamente culpados, precisam ser exemplarmente punidos.

Nada disso da direito a sociedade de invadir a vida de uma família com a sua curiosidade mórbida e a sua estupidez. Se não é possível à coletividade imaginar na sua própria pele o ardor da tragédia, já seria um belo avanço civilizatório se ela entendesse, de uma vez por todas, que a vida (dos outros) não é um Big Brother.

 

Abril 22, 2008 Publicado por joelmajoca | Sem-categoria | | Sem comentários ainda